quarta-feira, 28 de setembro de 2011

| acontecimentos que me definiram #3

o funeral do meu pai.
possas que só de me lembrar penso como é que consegui.

foi tudo demasiado rápido para eu conseguir pensar e sinceramente acho que nunca parei muito para pensar neste fatídico dia. ainda mexe comigo e confesso me desperta alguns sentimentos menos bons.

[...]
soube que meu o pai tinha cedido a dois anos de luta contra o cancro assim que olhei para o telemóvel e vi chamadas do meu irmão S. (o único da parte de pai com quem eu falava, que me procurou para me conhecer). eu dormia quando ele ligou e por isso não atendi, ele deixou mensagem no voice mail. começou ai os talvez 5min (não tenho percepção do tempo que passou até eu ouvir a confirmação do que eu já sentia), que para mim foram uma eternidade.
ouvi a mensagem e chorei sozinha no meu quarto. a minha mãe também não dormia (talvez ela também estivesse a sentir) ela percebeu e veio-me abraçar.
acho que adormeci pelo cansaço e lembro-me de acordar com o telefone a tocar, eram os meus irmãos ou irmã não sei da parte de pai a perguntar o meu nome completo para algo que tinha haver com o velório.

o corpo chegou à capela ao inicio da tarde, fui a correr... tinha que ver com os meus olhos.
e ai foi o choque.
era mesmo o meu pai.
na capela estava eu, a mulher do pai e um homem que só mais tarde fiquei a saber que era meu irmão.
fiquei sempre sozinha na capela, as minhas irmãs não podiam deixar os respectivos trabalhos uma vez que o meu pai não lhes era familiar directo.
era uma sexta feira, lembro-me disso...a minha mãe também não podia ir à capela (os meus irmãos da parte de pai iriam armar confusão e a minha mãe preferiu resguardar-se. imagino o que ela deve ter sofrido não poder dizer adeus ao homem que amou toda a vida)
a sexta passou, eu chorava num canto com aquele casaco de malha cinzento cheia de frio num dia quente de Primavera. Esperava ansiosa que o o unico irmão que conhecia entrasse pela porta da capela para eu poder me sentir um pouco amparada, mas ele só conseguiu voo tarde e chegou no sabado de manhã.
O sabado foi o dia mais estranho da minha vida, o dia do funeral. à medida que se aproximava a hora da missa chegavam amigos do meu pai, conhecidos, meros curiosos e os meus irmaos (que eu desconhecia). foi estranho, fui apresentada aos meus irmaos. ali no meio da capela. havia uma que só me pedia desculpa e me tratava por um outro nome qualquer que não meu e eu teimava em corrigi-la.

hoje quando olho para esse dia penso o quanto gostava de ter outro tipo de maturidade nesse dia. gostava de ter tido maturidade para ver que a mulher do meu pai estava a fazer do velorio uma festa, ria-se as gargalhadas e estava em grandes conversas com as amigas. gostava de me ter imposto. de ter imposto o respeito que o meu pai merecia.
a minha irmã e o meu cunhado chegaram perto da hora da missa, foi um alivio muito grande ter alguém em quem confiar comigo.
o meu cunhado abraçou-me e a minha irmã agarrou-me a mão, fomos para a igreja e não me consigo lembrar da missa em si, nem do padre.
lembro-me de ver muita gente, da igreja estar cheia.
lembro-me de caminharmos para o cemitério, do momento do enterro só me lembro de me chamarem para dar um beijo ao meu pai e o meu cunhado não autorizar por considerar demasiado traumatizante para mim. Lembro-me de uma irmã desmaiar, e de o meu cunhado e a minha irmã me tirarem o mais depressa que conseguiram daquele momento. assim que o enterraram muita gente me queria agarrar e me diziam para ter força, o meu cunhado circundava-me meteu-me no carro e fui para casa da minha irmã.

não voltei a chorar à frente de ninguém.
passaram 7anos...
7anos que para mim continuam a ser ontem.

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